O Início de “Querida Jess”

O Início de “Querida Jess”

The Beginning of "Dear Jess"

     Era sete horas da manhã quando meu celular vibrou me acordando. Normalmente eu não acordo tão cedo no sábado, todavia nesse eu me predispus a acordar, ontem foi uma dasquelas sextas feiras que a gente promete pro universo que no dia de amanhã aproveitaremos por completo, e no final das contas nunca fazemos nada, ficamos (pelo menos eu fico) deitadas na cama até tarde e só levantando para ir ao banheiro. Mas não hoje, era questão de honra, não permitiria que a preguiça me dominasse.

     Empurrei o edredom e espreguicei ainda deitada, logo senti a mão quente de Bu na minha barriga, acarinhava como quem dizia “volta aqui, fica comigo só mais dez minutos”, fui até ele e dei um leve beijo em sua testa, “hoje não amor”, pensei já sorrindo ao vislumbrar seu semblante calmo; coloquei sua mão na cama e me levantei, peguei frutas na geladeira, descasquei, piquei colocando todas no liquidificador. Depois de limpar a cozinha, tomei um banho  rápido e vesti uma roupa bem leve, afinal o verão de verdade começava a se mostrar nessa cidade tão fria, Bu ainda dormia, o que meu deu tempo de pesquisar algumas coisas sobre meu livro com mais atenção, enquanto tomava minha vitamina, receita de meu pai.

VRUM.

     Celular vibra novamente, mas dessa vez não é o despertador e sim uma mensagem da minha amiga Jessica, estavamos sem nos falar fazia alguns dias, quando coisas assim aconteciam não nos culpavamos, mas sim a vida por ser sempre tão corrida e mal termos tempo de aproveitar o dia inteiro e direito. Começamos a conversar e uma sensação quentinha me banhou, aquela que vem sempre que a gente conversa seja por mensagem ou Skype. As vezes eu acabo esquecendo que ela está do outro lado do oceano e a gente não se olha nos olhos faz mais de nove meses, não gosto de pensar nisso porque fico com nó na garganta e tudo começa a embaçar, melhor não pensar, concluo. Jess e eu nos conhecemos na terceira série, mas só ficamos amigas, daquelas  inseparáveis na sétima mesmo, um amor que foi crescendo com o passar do tempo até virar atemporal e gigante.

     Enfim, ela está falando como as férias estão um pouco intediantes, mas que ao mesmo tempo é bom estar em casa, sei como é essa sensação e digo a ela, talvez a gente fique por horas falando sobre isso, ah mas hoje não posso, tenho que aproveitar o dia. Termino minha pesquisa sem deixar de responder Jess, porém agora com um tempo mais espaçado. Como alguma coisa e Bu acorda querendo usar o computador. No meio tempo até o almoço vou até a academia e nado bastante fingindo que sou uma sereia (já falei que Jess sabe nadar que nem sereia?). Ah, quem vê pensa que eu só sei falar dela, entenda que não é bem assim, tem dias que a saudade aperta e acho que é um deles, não deveria ser triste, porém minha ansiedade não me permite deixar de pensar e o nó na garganta volta. Ao chegar em casa o almoço já está pronto e comemos juntos enquanto conversamos sobre algo que ele leu no reddit que era muito engraçado, mas que eu teria que ler pra ser mais.

     – Desculpa amor, mas estou sem paciência pra ler!

     – O que houve? – sinto um tom preocupado.

     – Nada demais, só saudade mesmo, saudade da Jess.

     – Então não é nada demais …. – dou de ombros – …Pense no que pode fazer pra mudar isso.

     Assenti sorrindo. Depois de um tempo ele teve que sair com seu pai e fiquei sozinha em casa, deitada na cama olhando o teto, faço bastante isso quando tenho crises de ansiedade, respirando fundo para que não me falte o ar que de vez em quando tende em fugir, perto de mim estava um chaveiro com metade de um coração que Jess tinha me dado antes de eu me mudar, sempre guardei com carinho e segurava em dias como esse, de saudade. Segurei entre meus dedos a tào pequena metade de coração e fechei os olhos. Era como estar de novo naquele bairro de Rio Grande da Serra, sentindo aquele abraço quentinho e molhado, já que as duas começaram a chorar descontroladamente, Jess não chora, por nada, mas chorava de soluçar aquele dia. As pessoas olhavam sem entender, mas a gente sabia mais que tudo que aquele seria a última vez que nos veriamos durante muito tempo, e que mesmo que nos víssemos outras vezes não seria por um longo período de tempo, sabiamos que conheceriamos outras pessoas fariamos outros amigos e que nada mudaria entre nós, aquele abraço nos deu certeza que melhores amigas nào se separam por um oceano, nem por nada, não se trocam ou esquecem, aquele abraço ficou marcado em mim, e acredito que nela também. Eu não sabia, mas a partir dali a coisa mais complicada que eu teria pela frente era fazer amigos, eu não sei explicar com tanta propriedade, mas nenhum amigo que eu fiz (e não foram muitos), são do mesmo jeito, ou tem a mesma fórmula que antigamente, não quero comparar, mas acredito que os amigos que voce conquista quando está crescendo e moldando sua personalidade sejam mais maleaveis com suas mudanças e novos modos de pensar, consigam te aceitar e compreender cada passo novo e dúvida, porque já viram todo seu histórico e estavam em momentos que ninguém mais pode estar, e os novos, bom, eles não conhecem sua essencia ainda, se é que vão conhecer, não porque não querem, mas porque eu já não consigo permitir como antes. Sei que quando estou com medo, ou indecisa, ou quando as coisas não vão bem e preciso de um escape, eu lembro desse abraço, lembro dela me apertando bem forte contra si, lembro do vermelho do olho dela, vermelho de amor, do que antecede a lágrima e todo o sentimento de saudade que já vem antes mesmo de existir. De tudo estar bem, como sempre foi e na hora de dizer “já está na hora de ir” tudo virar, e a bola na garganta vir as lágrimas sem obedecer já descerem … Eu sinto falta daquele dia, sinto falta dela, das nossas panquecas e filmes de terror, e quando a saudade aperta loucamente eu assisto Dawson’s Creek porque na minha cabeça ela é a Joey e aquece o coração.

      Abro os olhos e percebo que estou soluçando, que tudo está embaçado, mas tudo bem, porque faz parte da transição de dias assim, sorrio e me levanto procurando uma foto nossa no computador e sorrio mais, porque é antiga e estamos sorrindo muito, pego meu celular e mando “Tive uma ideia fantástica, saberá de tudo em uma semana!”, ela não respondeu, não estava online, culpa de Supernatural provavelmente, mas tudo bem. Peguei papel e caneta e ainda com algumas lágrimas no rosto comecei a escrever …

Querida Jess,  

                                                ***

Olá, comecei uma série de cronicas em parceria com minha amiga Luana, a cada 2 semanas em uma sexta feira (sempre que possível), postaremos uma cronica/conto com um tema pré selecionado, o tema dessa semana foi amizade, espero que tenham gostado, vejam também o texto da lu aqui. E com essa cronica eu começo também uma categoria que vai se chamar “Querida Jess”, em que eu escreverei cartas pra minha amiga Jessica sobre varias coisas. Obrigada, e tenham um bom domingo.

2 thoughts on “O Início de “Querida Jess”

  1. Amei a cronica. Vou continuar lendo, <3' Primeira carta para Jess (L)'

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